
Beijo na na
Beijo na nação pri
Beijo na nação primeira
Tchucarramãe nossa
Mãe nossa trouxe um índio novo
Numa estrela colorida
E brilhante que brilha
Mãe nossa fez de novo
I Juca Pirama gritar
Carne de branco é salgada
Mas a gente gosta
Bodoques, enxadas e flechas
Pirão de farinha
Mãe nossa deu apito
Agora a gente apita e grita
Cem quilômetros de terra
Crao, Xerente, Yanomami
Apinajé, Carajá
A gente corta a cabeleira
E grita e pula e canta
Mãe nossa fez da vida inteira
Um pula-e-grita-e-canta
2- O Comedor de Calango e o Gerente da Multinacional (Mauricio Baia, Tonho Gebara e Ana Bertani)
Na minha infância eu comia calango vivo
Comia calango seco, comia calango lá
Na minha infância eu comia calango vivo
Comia calango seco, comia calango lá
Era buchudo que nem baiacu virado
Meu joelho era inchado de eu tanto caminhar
Mas no que a fome me batia era cegueira
Eu saía a fazer poeira
Pra caçar calango lá
Bicho ligeiro anda virado na cachorra
Corre mais do que uma porra
Era impossível de alcançar
Era preciso um bocado de inteligênça
As armadilha e a paciênça
Pra mode a gente almoçar
Matava o bicho com uma pedrada na cabeça
E pendurava ele na cerca
Pra carne poder secar
E a carne seca eu comia com macaxeira
E espantava a mosca bicheira
Que queria o meu jantar
Mas êita que é agora que eu me espalho
Que plantaram um festifude
Bem no meio do sertão
Larguei a calangada do balaio
E me juntei à fila armada
Pra fazer a refeição
Big Calango com alface, queijo, pão com gergelim
Suco de xiquexique e eu sem capital
Pois é que agora nem caçar a gente pode
Porque foi privatizado pela multinacional
Acontece que o gerente do franxaize
Que contrata funcionário
Ouviu falar do meu norrau
E hoje eu ando caçando calango tanto
De frilance pago um lanche com o salário semanal
Deus me dê grana pra eu poder casar com Ana
Me dê poupança pra eu comprá-lhe as aliança
Sucesso pra eu me adaptar ao progresso
Caçando calango tanto, caçando calango lá
Caçando calango tanto, caçando calango lá.
Compre aqui bom e barato
Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante
Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias
Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá
Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico
Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
(Refrão)
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
Jaya Radha Madhava Kunja-Bihari
Como o legado dos maias, menina
Como o que vem da maré
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como o segredo da cor turmalina
O fim da nação Aimoré
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
O inventor da gandaia, é tudo o que eu quero ser
O rei do rabo de arraia, menina, é tudo o que quero ser
E gente da tua laia, é tudo o que eu quero ser
E esse tomara que caia, menina, é tudo o que eu quero ser
Como o segredo de um sol que ilumina
Londres e a Praça da Sé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como quem nasceu em Amaralina
Que traz o gingado no pé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
O defensor da mulata é tudo o que eu quero ser
O nó que nunca desata, menina, é tudo o que eu quero ser
O Zumbi da tua mata é tudo o que eu quero ser
O percussionista de lata, menina, é tudo o que eu quero ser
Como o painel de Van Gogh e a retina
E o sangue azul da ralé
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
Como quem diz que me odeia e me anima
Qual o segredo da fé?
Tá escondido no tempo, menina
Aquilo que a gente é
O grão-vizir da Baixada é tudo o que eu quero ser
O demolidor da fachada, menina, é tudo o que eu quero ser
O doido da madrugada é tudo o que eu quero ser
Um bicho estranho ou nada, menina, é tudo o que eu quero ser
É como um gago que não parecia gago
Gago como a gente ria
Meio gargalhando gago
E era uma vitrine, os olhos da menina,
A gente ria muito no quintal
E é feitiçaria como a gente ria
Gargalhando do bem e do mal
Cheguei na beira do porto
Onde as ondas se espáia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai
Ai quando eu vim da minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d'água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai
Eu gemo no meu baião
Nesse momento profundo
Minha mãe gemeu por mim
Para botar-me no mundo
E eu não gemo por ela,
Ai ai, ui ui,
Porque sou um vagabundo.
Papai foi homem profundo
Se gemeu não foi aqui
Ele gemeu com mamãe
E outra pessoa, que eu vi
E do gemido dos dois,
Ai ai, ui ui,
Olha eu cantando aqui.
Eu para cantar nasci
Vivo gemendo também
Quando a cantoria vai
É que a gemedeira vem
E aqui na face da Terra,
Ai ai, ui ui,
Sem gemer não há ninguém.
Quase todo mundo tem
Um gemido que implora
Geme o sujeito casado
Às vezes fora de hora
Geme no dia que casa
Ai ai, ui ui,
E quando a mulher vai embora
Eu vou comprá na feira uma cascavé
Enchê os dedo de ané e aprendê a dançá rock
Eu vou borrá os óio todo de carvão
Amorcegá um caminhão e vou batê em Nova York
Chegando lá compro uma rôpa de cetim
Dessas que rebrilha assim que nem galinha pedrez
No fim do ano volto na grana montado
Snob e afrescalhado machucando no ingles
It´s not mole, não
Don´t have condição
Um roli roice no estacionamento
No lugar desse jumento
Que me fez passá vexame
Prá esquecê a minha vida de miséria
Vou passá as minhas féria
Lá na praia de Miami
Com uma galega de dois metro da altura
Daquelas que tira côco sem nem precisá de vara
O punk rock tá me oferecendo a chance
Mas antes que ele se canse
Eu vô é metendo a cara
E quando eu for me apresentá na discoteque
Vou mostrá pr'esses moleque
Que matuto é que é o bão
Eu que tentei aqui na terra tantos anos
Agora o americano é que vai curtir meu som
Depois que a gente vai embora pro estrangeiro
Que se amunta no dinheiro o negócio é chalerá
Eu só volto aqui na terra pra curtir minhas estafas
Que nem diz Frank Sinatra não vou dá colher de chá
E não finge que me ama
E que madeira ama cupim
Vê se me poupa desse drama
E vade retro, coisa ruim!
E se a coisa desandar
E se alguém te perguntar
Pode por a culpa em mim
A gente é junto e separado
Igual piscina e trampolim
Você fala acariocado
Me enganando que é latim
Mas se o medo do momento
É o global aquecimento
Pode por a culpa em mim
E se a esquerda no poder
Desandou teu Zepelim
E se o medo de perder
Azedou o teu quindim
E se o rock hoje é cafona
Se a mocinha hoje é matrona
Pode por a culpa em mim
Se você já descobriu
Publicado num pasquim
Que só mesmo no Brasil
Comandante faz motim
O sucesso é quase um crime
E a mentira é o que se imprime
Pode por a culpa em mim
Eu grito, sou vento, poeira
Sou pó, ventania
Gramado sem gente
Covarde, valente
Soldado ou tenente
Depende da hora
O que eu cismo de ser
Enfim, sou a mesma palavra
Num outro sentido
Mero menestrel das angústias urbanas
O louco Quixote
Da grande cidade da realidade
Moinho a vencer
Eh, sua bastante pra regar a plantação
Eh, bate a enxada como bate o coração
Amassa a terra, bate forte com a enxada
Põe semente, tira a terra
Põe sal grosso, que é pro santo ajudá
Lavadeira que já se benzeu
Lavadeira e seus orixás
Pé descalço, ri meio sem jeito
E diz que a vida é dura mas dá pra levar
Lavadeira diz que já sonhou
Com o conforto que o dinheiro dá
Mas sorri vendo seu filho forte
E diz que o que não teve ele vai conquistar
Eh lavadeira, passo lento
Pé descalço, volta ao seu lugar
Your mama say Yeah, Your papa say no!
Quem dera estar na tua festa, mama!
Houve essa música preta e me chama
Bophuthatswana, sorriso de fada
Tua bunda tão musculosa, lábios de almofada
Gueto de Soweto, agora um caminho
Já foi tão cruel, sujo, mau
Mas virou nosso ninho
Soninho, soninho!
Last night, I had a dream about you, I saw you in a run,
Me saw that noisy people kicking you unde the sun
Though you were me best friend, bro, me could not save your soul, bro
Me called you 'moyher fucker!', while the crowd'd began to stuck and fuck you
Your mama say Yeah, Your papa say no!
Even if you ask me for help I could not listened ya
You can get the kiss of life but you can depend on the people too, yo
They' ve cut your bals and suck your blood and than they play the tango
Numa tarde quente eu fui-me embora de Brasília
Num submarino do lago Paranoá
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
Namorando Madalena na beira do mar
Qualquer dia, mãe, você vai ter uma surpresa
Vendo na TV meu peito quase arrebentar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
Namorando Madalena na beira do mar
Quem quiser que faça o velho jogo da política
Na sifilítica maneira de pensar
Quero ser estrela lá no Rio de Janeiro
Namorando Madalena na beira do mar
Eu tenho o coração vermelho
E o que eu canto é o espelho do que se passa por lá
Manhê, êh mãe
A coisa é como a gente combinou, mas voltei
É complicada
Madá manda me buscar
Manhê, êh mãe
Gostei de ser estrela, mas cansei de brincar
Submarino volta pro Paranoá
Estou levando o Mongol e toda clave de sol
Lembra mulher grávida
Minha cabeça ta grávida, ávida para inventar
E Madalena também tomou esse trem
Veja você, Brasília
Cantei Bandolins, mas sempre pensando em voltar
Manhê, êh mãe
A lúcida visão do que se quer fica atrás
Da doida brincadeira
Hoje eu quero é mais
Manhê, êh mãe
O Zé gravou um disco e ainda é bom rapaz
E cada sonho eu ponho onde não cabe mais
Minha estrela não é a de Belém
Aqui parada guarda o peregrino
Sem importar-se com qualquer destino
A minha estrela vai seguindo além.
Meu Deus, o que é que esse menino tem?
Já suspeitavam desde eu pequenino,
O que eu tenho, o que tenho é uma estrela em desatino
E nos desentendemos muito bem.
Verde, verde, folha desabada
Doida cor sem ter qualquer razão de ser
Mágica das coisas, das verdes coisas
Dos olhos verdes de quem vê
Hortelã dos chás, dos beijos verdes
Doida flor sem ter qualquer razão de ser
Lógica das coisas, das novas coisas
Dos olhos verdes de quem vê
Doce maçã da saúde e água
Doido amor sem ter qualquer razão de ser
Ávida das moças, das novas moças
Dos olhos verdes de quem vê
Como rã saltando é folha verde
Doido acordo tem qualquer razão de ser
Plástica dos olhos, dos verdes olhos
Dos olhos verdes de quem vê
Doce maçã da saúde e água
Doido amor sem ter qualquer razão de ser
Ávida das moças, das novas moças
Dos olhos verdes de quem vê
Texto: Ilha (Oswaldo Montenegro)
Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado.
Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente.
Por exemplo: um garoto tímido, abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha.
Um velho que esperou a visita dos netos no Natal
e não apareceu ninguém, é uma ilha.
Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo que mataram, é uma ilha.
Até a lágrima é uma ilha, deslizando no oceano da cara.
Quando os meninos do Brasil
Olharem pro Brasil com medo do quem vem depois
Oxum, olhai por nós!
Oxum, olhai por nós!
Quando os meninos do Brasil
Olharem pro Brasil e aí soltarem sua voz
Oxum, olhai por nós!
Oxum, olhai por nós!
O homem chega e já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato
Que dizia que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão
Vai virar mar, dá no coração
O medo que algum dia o mar também vire sertão
Adeus Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir
Debaixo d'água lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir
Vai ter barragem no salto do Sobradinho
E o povo vai-se embora com medo de se afogar
Remanso, Casa Nova, Sento-Sé
Pilão Arcado, Sobradinho
Adeus, Adeus ...
Eh, beira de rio
Paço do Rosário se avista ao longe
As ruas tortas vão se desenhando pelo arraial
Eh, beira de rio
Paço do Rosário limitando o agreste
Sua janela, sua velha doca de barrica e pau
Eh, água barrenta rolando sem pressa, consumindo a terra
O pôr-do-sol avermelhando Paço do Rosário
Eh, na velha igreja já são seis da tarde
O povo reza o terço
Ave Maria! Mãe do céu! Cruz credo!
Quem me mata é Deus...
Eh, murmúrio lento
Como prece aflita, vai descendo o rio
Acompanhando o dia que se vai, buscando o anoitecer
E anoitecendo, Paço do Rosário quase silencia
A velha estátua caída na praça, mais um dia
Eh, velha rameira deixa a vela acesa por Virgem Maria
Ave Maria! Mãe do céu! Cruz credo!
Quem me mata é Deus
Dentro da selva uma estrela
Na Pindorama reluz
Computador no quilombo
Cristo liberto da cruz
Canta o país da mistura
Reza nação pela paz
Som de atabaques na noite
Barcos libertos do cais
Viva o país vira lata
Trem futurista do amor
DNA de mulata
Caleidoscópio de cor
Dança Tupã com São Jorge
Dança Iansã com Oxalá
Dança Ogum com o Rabino
Dança o ateu com Alá
O presidente requebra
O padre dança na rua
O namorado assovia
Doido olhando pra lua
Tropicalismo de festa
Lógica de carnaval
Olha pro mundo e empresta
Sua alegria total
E quem não tem amor do lado
Não é de lugar nenhum
Oi, não é de lugar nenhum, (vira poeira)
Não é de lugar nenhum (vira poeira)
E quem vai ser abençoado
Hoje é Logum Edé e Ogum
Hoje é Logum Edé e Ogum (vira poeira)
Hoje é Logum Edé e Ogum (vira poeira)
Olha o perfume do passado
No gingado de Olodum
Ó no gingado do Olodum (vira poeira)
No gingado de Olodum (vira poeira)
Quem não tem amor do lado
Não é de lugar nenhum
Oi, não é de lugar nenhum (vira poeira)
Não é de lugar nenhum (vira poeira)
A moça estranha do sobrado
Põe feitiço em qualquer um
Oi, põe feitiço em qualquer um (vira poeira)
Põe feitiço em qualquer um (vira poeira)
O viajante aqui do lado
Tá calado ele é de Oxum
Oi, ta calado ele é de Oxum, (vira poeira)
Oi, ta calado ele é de Oxum (vira poeira)
E misturou, tá misturado
Inté romã com girimum
Até romã com girimum (vira poeira)
Até romã com girimum (vira poeira)
E o que nasceu tá condenado
Até o homem incomum
Até o homem incomum, (vira poeira)
Beijo na na
Beijo na nação pri
Beijo na nação primeira
Tchucarramãe nossa
Mãe nossa trouxe um índio novo
Numa estrela colorida
E brilhante que brilha
Mãe nossa fez de novo
I Juca Pirama gritar
Carne de branco é salgada
Mas a gente gosta
Bodoques, enxadas e flechas
Pirão de farinha
Mãe nossa deu apito
Agora a gente apita e grita
Cem quilômetros de terra
Crao, Xerente, Yanomami
Apinajé, Carajá
A gente corta a cabeleira
E grita e pula e canta
Mãe nossa fez da vida inteira
Um pula-e-grita-e-canta