Sexo (Oswaldo Montenegro)

Seja qual for o tema o que te importa é sexo
Seja alegri, angústia, choro, encanto ou dor
Seja de ausência, sonho, tara ou por complexo
Seja na cama, palco, escada, elevador
Está no leite fluido que escorreu do ralo
Está no olhar de sal de Jack, o Estripador
E vem do fundo da garrafa pro gargalo
Está no ris obrigatório ou no pavor
É o olhar de sal de Jack, o Estripador
Eu penso mais na tua pele e na tua língua
Do que na alma que teu olho me mostrou
É sem teu corpo que minha alma fica à míngua
É no teu seio que conserto o que quebrou
E quando falo da tua luz assim, quem dera
Ela acendesse em mim o santo que não sou
Mas ilumina em meu olhar o lhar da fera
Que entre tuas pernas carne sã despedaçou
É o olhar de sal de Jack, o Estripador
O que eu marquei na tua pele não se lava
Pode ser cheiro, hematoma ou cicatriz
É pelo seco que meu sol te faz escrava
Quer seja santa, cidadã ou meretriz

Se perguntarem pelo irmão não me aponte
Pra disfarçar escreva na chuva com giz
Que minha faca desfibrou seu horizonte
Rasgando a pele da paisagem por um triz
É a escolha entre ser calma e ser feliz
Seja qual for o tema o que te importa é sexo
Seja cabala, umbanda, herói ou desertor
Seja loucura, de verdade ou tenha nexo
Seja ou não seja, seja o que for
Seja dançar no vento, areia ou tempestade
Seja no sonho seja no que despertou
Seja uma flor ou seja alguém na flor da idade
É o perdã ao lobo que te aboncanhou
É o olhar de sal de Jack, o Estripador


Vamos Celebrar (Oswaldo Montenegro)

Eu gosto de andar pela rua bater papo, de lua e de amigo engraçado
Eu gosto do estilo do Zorro, o visual lá do morro e de abraço apertado
Eu gosto mais de bicho com asa, mais de ficar em casa e mais de tênis usado
Eu gosto do volume, do perfume, do ciúme, do desvelo e do cabelo enrolado
Eu gosto de artistas diversos, de crianças de berço e do som do atchim
Eu gosto de trem fora do trilho, de andar com meu filho e da cor do marfim

Tem gente, muita gente que eu gosto, que eu quase aposto que não gosta de mim
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar

Eu gosto de artista circense, de artista que pense e de artista voraz
Eu gosto de olhar para frente, de amar para sempre o que fica pra trás
Eu gosto de quem sempre acredita, a violência é maldita e já foi longe demais
Eu gosto do repique do atabaque, do alambique badulaquer do cachimbo da paz
Eu gosto de inventar melodia, da palavra poesia e da palavra com til
Eu gosto é de beijo na boca, de cantora bem rouca e de morar no Brasil
Eu gosto assim do canto do povo e de tudo que é novo e do que a gente já viu
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Eu gosto de atores que choram ali por nós e namoram ali por nós na TV
Eu gosto assim de quem é eterno e de quem é moderno e de quem não quer ser
Eu gosto de varar madrugada, de quem conta piada e não consegue entender
Eu gosto da risada da risada gargalhada, da beleza recriada pra que eu possa rever
Eu gosto de quem quer dar ajuda e acredita que muda o que não anda legal
Eu gosto de quem grita no morro que a alegria é socorro e que miséria é fatal
Eu gosto do começo do avesso, do tropeço do bebum que dança no carnaval

Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Eu gosto de ver coisa rara a verdade na cara é do que gosto mais
Eu gosto porque assim vale a pena, a nossa vida é pequena e tá guardada em cristais
Eu gosto é que Deus cante em tudo e que não fique mudo morto em mil catedrais
Eu gosto é de cantar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar
Vamos celebrar, celebrar, celebrar... Vamos celebrar


Do muito e do pouco (Oswaldo Montenegro/Zé Ramalho)

Se em terra de cego quem tem um olho é rei
Imagine quem tem os dois
Se em terra de cego quem tem um olho é rei
Imagina quem tem os dois
É muito quadro pr'uma parede
É muita tinta pr'um só pincel
É pouca água pra muita sede
Muita cabeça pr'um só chapéu
Muita cachaça pra pouco leite
Muito deleite pra pouca dor
É muito feio pra ser enfeite
Muito defeito pra ser amor
É muita rede pra pouco peixe
Muito veneno pra se matar
Muitos pedidos pra que se deixe
Muitos humanos a proliferar
Se em terra de cego que tem um olho é rei
Imagine quem tem os dois
Se em terra de cego quem tem um olho é rei
Imagine quem tem o dois


Flor da Idade (Chico Buarque)

A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia
Aí, a primeira festa, primeira fresta, o primeiro amor
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada sem sandar seminua
E continua
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor
Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha


Ruínas de Sol (Oswaldo Montenegro)

Como nasce do lodo do fundo do mares
O velho vestígio da embarcação
Há de vir da ruínas dos nossos pesares
A primeira luz do nosso coração
Como nasce do fundo do poço escuro
A água cristalina pra matar nossa sede
Há de vir do oceano ou do leito de um rio
A nossa esperança envolvida na rede
Como nasce o jasmim do que sujou a terra
E a primeira estrela da ausência do sol
Hei de ver o verão germinar primavera
E a semente da terra no nosso lençol
Como a fúria da chuva lavou o telhado
E o cansaço nos fez a vigília enfrentar
As ruínas são restos, mas não do que acaba
E sim do que morre pra recomeçar